C-10 E se acontecer…
Incêndio na oficina com um retrofit a meio
Um clássico do cliente em conversão para elétrico, o pack de baterias no chão da oficina, uma noite de fim de semana. Arde a oficina — e arde uma pergunta: o que era aquele carro, juridicamente, naquele momento?
01 O que costuma acontecer
O multirriscos da oficina responde pelo edifício e equipamento próprio. O problema começa nos bens de terceiros: o carro do cliente estava à guarda da oficina, e a cobertura de «bens de clientes» — quando existe — tem capitais por unidade pensados para uma revisão de travões, não para um clássico valorizado com um comboio elétrico novo lá dentro. E há a pergunta da perícia: a origem do fogo. Se aponta ao pack de baterias em bancada, entra em cena tudo o que já conhecemos do lítio — mais uma agravante: o manuseamento era atividade profissional, e a apólice da oficina descrevia a atividade, como tantas, apenas como «reparação automóvel».
02 Quem responde normalmente
A oficina, perante o cliente, pela guarda do veículo — independentemente do seguro que tenha. O multirriscos da oficina, na medida dos capitais e da atividade declarada. O fornecedor do kit de conversão, se o defeito for do material — em regresso, com a dificuldade de prova habitual. E, num retrofit, paira a questão da homologação: um veículo com a motorização alterada fora do processo legal de homologação é um argumento servido de bandeja a qualquer seguradora que procure reduzir a sua exposição.
03 Onde a apólice-tipo falha
Quatro fronteiras ao mesmo tempo: atividade declarada que não menciona conversões nem trabalho em alta tensão; bens de clientes com capital por unidade irrealista; baterias em stock e em bancada que nenhuma cláusula contempla; e RC de produto inexistente — porque a oficina «só repara». Um programa de seguros comprado quando a oficina fazia embraiagens não acompanhou a oficina que passou a fazer eletrificações.
04 O que fazer antes de acontecer
- Atualizar a descrição da atividade na apólice: conversão, trabalho em sistemas de alta tensão, manuseamento e armazenagem de baterias de lítio. Por escrito.
- Capitais de bens de clientes realistas — pelo valor dos veículos que realmente entram, clássicos incluídos, e por unidade.
- Zona e procedimento para baterias: armazenagem separada, estado de carga reduzido em bancada, deteção de incêndio. Baixa o risco e sustenta a negociação do prémio.
- RC profissional e de produto dimensionadas ao que sai da oficina: um veículo convertido circula anos com o vosso trabalho lá dentro.
- Homologação em dia em cada projeto — pelo cliente, e também pela oficina: é a vossa defesa no dia em que algo correr mal na estrada.
Em resumo
Uma oficina que evolui para o retrofit muda de perfil de risco sem mudar de morada — e o seguro não acompanha sozinho. A conversa com a seguradora tem de acontecer antes do primeiro pack de baterias em bancada, não depois da primeira perícia.